Mauro Ricart e o querosene

 

Quando consegui localizar Antonio Clarete, o frentista que havia lavado o carro do assassino logo depois do crime, e retirado o sangue que se encontrava no banco traseiro,  tive um encontro com o dr Mauro Ricart, diretor do ICE, em companhia do meu advogado Arthur Lavigne, pedindo  que a policia localizasse o Santana, que já havia sido vendido, para levar a exame o seu banco traseiro. Ainda que fosse necessário comprar o carro para poder abrir o banco e recolher a prova -eu me dispunha a arcar com a despesa.

Porque? um dos peritos do ICE, revoltado com o comportamento do dr Ricart, me procurou para contar que existia no IML um produto -LUMINOL-, capaz de detectar a presença de sangue mesmo depois dele ter sido limpo. informou também que o produto NAO tinha sido utilizado quando da perícia do carro do crime.

Estranhamente -muito estranhamente mesmo-, o dr Mauro Ricart recusou o pedido, negou a necessidade do Luminol e apressou-se em declarar aos jornais que a testemunha mentia, porque se houvesse lavado o carro com a mistura que declarou na policia, que incluía um pouco de querosene em sua composição, a perícia teria detectado esse cheiro na ocasião em que examinou o carro.

A atitude do dr Ricart fica ainda mais estranha quando a perícia informa, nos autos do processo, que o carro passou por uma lavagem profissional e que o LUMINOL não foi utilizado para saber se havia sangue no banco traseiro, como afirmava a testemunha Clarete: testaram apenas onde o sangue era visível para constatar que se tratava mesmo de sangue humano.

Vejamos as condições em que a perícia foi feita:

1.

no dia 28, o carro foi lavado minutos após o crime ser cometido, por volta das 10 horas da noite, num posto da Barra da Tijuca, situado em frente ao Barrashopping.

2.

De lá, o carro seguiu para Copacabana, residência dos criminosos, onde porteiros  e síndica afirmam ter sido lavado de novo.

3.

De madrugada, nesse mesmo veículo, os assassinos voltaram à barra da Tijuca para prestar os pêsames à nossa família e tornaram a voltar para Copacabana

4.

na manhã do dia 29, a policia conduziu o assassino, nesse mesmo veículo novamente à delegacia da Barra da Tijuca. O criminoso foi em companhia do sogro. O banco traseiro ainda estava úmido e isso foi registrado por testemunhas, fotografado e filmado  pelas câmeras de tv

5.

interrogado, o assassino confessou o crime. Estranhamente, o carro, ao invés de ser levado imediatamente para a perícia, foi mandado de volta para casa, com o sogro do assassino que se comprometeu a entrega-lo no ICE ainda naquele dia. Na garagem do prédio, passa por uma nova lavagem.

6.

só na parte da tarde, o carro foi entregue à perícia, e o dr Mauro Ricart afirma que ainda deveria cheirar a querosene!!!

Diante de tal postura, dirigi-me ao departamento de Química da PUC e perguntei qual professor estava presente. Me recebeu o dr Aloysio Mário Bomtempo ,  que riu muito das idéias do dr Ricart sobre o querosene e disse que se os  policiais fossem capazes de detectar o cheiro de querosene tanto tempo depois de uma lavagem profissional, não necessitaríamos de cães no aeroporto: o faro deles ultrapassaria em muito ao desses animais. O dr Aloysio fez uma declaração anexada ao processo,   lembrando ao doutor Ricart que o querosene é substância volátil, experiencia que todos nos fazemos cotidianamente.  

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Nem diante disso, o dr Ricart se envergonhou. Chamado pelo juiz a esclarecer, diante do tribunal do júri, essa negação extravagante de um conhecimento primário da química, o dr Ricart, depois de reafirma-la num programa de rádio, internou-se numa casa de saúde, alegando um mal súbito e não compareceu ao Tribunal. Anos mais tarde, apareceu num programa de TV que entrevistava Guilherme de Padua, corroborando a versão do assassino, de que o assassinato teria sido cometido por Paula Thomaz, e não por ele. Se já estava entendido, ficou mais claro.

Leia sobre a lavagem do carro e o depoimento de Antonio Clarete

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3 Responses to Mauro Ricart e o querosene

  1. Gustavo 27/07/2020 at 4:12 pm #

    Tem muita coisa errada em todo o desenrolar da investigação desse crime monstruoso, como um todo na verdade.

    1) No momento em que foi constatado o indício da autoria (prova visual, o Santana e a placa anotada) e a prova da materialidade (o corpo da vítima), esse carro já deveria ter sido apreendido imediatamente.

    2) Obviamente ele seria lavado logo após a consumação do ato. Se os bancos estavam úmidos ainda de manhã, é porque esse carro foi lavado outras vezes depois que Antonio Clarete lavou.

    3) O sogro levou o FDP no Santana? O Santana chegou na Delegacia e não teve como reter o carro? O sogro “se propôs” a entregar o Santana? Que investigação é essa que permite o investigado a entregar a prova quando ele quiser?

    4) A mecânica da execução está clara porque a punhalada fatal ocorreu dentro do Santana. Como?

    – O FDP estaciona o Escort;

    – A outra FDP para o Santana logo atrás;

    – Daniella ainda está desacordada dentro do Santana por conta da emboscada no Posto, a FDP dá a primeira punhalada ali dentro do carro mesmo;

    – No mesmo instante, de forma involuntária, Daniella tenta de alguma forma se esquivar porque começa a recobrar a consciência: é aí onde o FDP dá o segundo soco (pois ela ainda está viva), dá uma gravata com o punhal cravado na menina e os dois (o FDP e a Daniella) caem no asfalto e ela raspa o rosto (a escoriação enorme na face direita da menina);

    – Eles arrastam a menina pra dentro do matagal e continuam desferindo punhaladas.

    5) E o sangue? Com certeza o lençol tinha essa finalidade, porque ela morreu por anemia aguda (falta de sangue). Devem ter usado naquele ritual macabro, ali mesmo.

    6) Chegaram no prédio, abriram o porta-malas e jogaram o lençol no lixo do prédio e absolutamente ninguém recolheu esse material.

    Me chama muito a atenção esse Mauro Ricart ter a pachorra de falar que querosene ainda podia ter algum odor depois de mais de 4 horas. Qualquer um que deixar um pouco de querosene num pano vai ver que dali a pouco não vai mais ter cheiro nenhum, é muito volátil.

    A Daniella sofreu a punhalada fatal dentro do Santana (tinha sangue, o que comprova isso). Mas o punhal nunca apareceu e o lençol também não. Isso porque nunca foi esclarecido em que momento ele adulterou a placa do Santana.

    Enfim, foi uma sucessão de erros e omissões que poderia ter elucidado de vez essa barbaridade que cometeram contra a Daniella.

  2. Fabiano 27/12/2012 at 6:40 pm #

    Esse doutor Ricart me parece bem suspeito. Não sei a causa disso, mas esse cara também deveria ter sido investigado. Algum rabo preso ele tem. Ou é um trapalhão de marca maior. Vai saber….

  3. Lívia 27/12/2012 at 5:42 pm #

    Esse Mauro Ricart é o mesmo “perito” da entrevista com G.P.??
    Se for o mesmo…, qual é o problema dele?

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